O DESAPARECIMENTO MISTERIOSO DE FREDERICK VALENTICH - PARTE III

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Suicídio ou brincadeira que terminou em tragédia? Ambas as teorias foram analisadas nos meus dois artigos anteriores sobre o desaparecimento de Frederick Valentich. Analisei também a forma distorcida com que se tenta reforçar as teorias mencionadas, fazendo passar a imagem de Valentich como sendo um fanático do fenómeno OVNI.


Ainda assim, os defensores dessas teorias mencionam que existem muitos outros elementos na história de Valentich que nos permitem concluir que ele não tinha verdadeiramente intenção de chegar a King Island nesse dia. Analisemos pois alguns desses argumentos.

Valentich preencheu um plano de voo só de ida

Podemos encontrar alguns documentários onde esta ideia é transmitida, como por exemplo no documentário do Canal História (e que pode ver aqui, em português, no YouTube). Conforme se pode verificar com facilidade esta ideia é completamente falsa. Os ficheiros oficiais são claros ao provarem que Valentich preencheu um plano de voo de ida e volta:


Valentich não pediu antecipadamente para acender as luzes da pista de pouso/aterragem em King Island

Quase todos os artigos ou documentários sobre o desaparecimento de Valentich, usam este argumento como prova de que o mesmo não tinha intenção de ir até King Island, uma vez que seria de noite quando lá chegasse. Vejamos:

  • Valentich levantou voo de Morabin às 18:19 (Hora local)
  • O pôr do sol  em Cape Otway foi às 18:50
GMT
  • Às 19:00 confirma a sua posição em Cape Otway (daqui até King Island seriam apenas mais 28 minutos de voo)
  • Às 19:12 Valentich fez a sua última comunicação
  • Somente às 19:21 o céu ficou totalmente escuro (última luz)

Se Valentich tivesse partido de Moorabin à hora que constava do plano de voo, 17:45, teria chegado a King Island antes das 19:00, ou seja, quase meia-hora antes de ficar totalmente escuro. Mesmo tendo levantado voo às 18:19, é natural que Valentich, que apenas tinha feito um voo noturno previamente, pensasse que era possível chegar a King Island ainda com luz. E não estava muito enganado. Se tudo tivesse corrido normalmente, a chegada seria às 19:28, sete minutos apenas após o céu ficar totalmente escuro naquela zona da Austrália.

Outro pormenor interessante, reside no fato de o oficial de serviço em King Island (Brian Jones) que foi chamado de emergência às 19:15 (quando Valentich reportou problemas no motor), estar nesse momento a jogar golfe, o que também parece confirmar que a essa hora ainda havia luz suficiente. Para além disso, assim como Melbourne conseguiu avisar o oficial de serviço em King Island via rádio, se por acaso Valentich necessitasse das luzes da pista, não seria igualmente fácil fazer esse pedido a Melbourne pela mesma via?

Farol de Cape Otway, local onde às 19:00 Valentich confirmou a sua posição via rádio
By csett86 (Christoph Settgast, Germany) (Flickr) [CC-BY-SA-2.0], via Wikimedia Commons
Valentich afirmou que iria apanhar três passageiros em King Island mas não havia passageiros à sua espera

Penso que a explicação para esta aparente contradição, pode ser encontrada no seguinte trecho dos ficheiros oficiais:



Pelo que podemos ler no texto acima, Valentich declarou à empresa Southern Air Services, a quem alugou o Cessna 182L, que tinha a intenção de ir a King Island apanhar três passageiros, mas  na realidade, eles achavam que ele ia buscar lagostins.

Como a empresa não permitia o transporte de lagostins, é natural que Valentich tenha ocultado o verdadeiro motivo do seu voo, e inventado a história dos três passageiros. E de fato, Valentich tinha uma encomenda de um lagostim, da parte do seu colega Ron Grandy do Air Training Corps. A sua família e namorada também tinham conhecimento que o voo até King Island, tinha como objetivo principal a compra de lagostins. 

Brian Jones, o oficial de serviço em King Island, que deu origem à operação de busca e salvamento, declara no documentário The Unexplained Files (que podem ver no meu primeiro artigo desta série), que não era possível comprar lagostins em King Island nesse dia, porque falou com alguns pescadores, e nenhum deles tinha lagostins para vender. Mas será que Brian Jones falou com todos os pescadores e investigou todos os locais onde Valentich poderia se ter dirigido para comprar lagostins? 

A este respeito, a publicação International UFO Reporter, de Dezembro de 1978, menciona uma experiência curiosa. O investigador Paul Norman fez questão de ir até King Island, por volta das 20:00, para tentar comprar lagostins, sem ter feito qualquer encomenda prévia. Foi com facilidade que encontrou vários pescadores dispostos a fazê-lo.

O avião de Valentich nunca apareceu no radar do Controlo de Tráfego Aéreo de Melbourne

A explicação para o fato de o Cessna de Valentich nunca ter aparecido no radar, pode ser vista (ouvida) no documentário Australian Mosaic de 1989, da televisão australiana SBS:



Steve Robey confirma que, quando Valentich perguntou se existia alguma aeronave militar na imediações, foi de imediato à sala de controlo verificar o radar. Mas, segundo o próprio, a altitude a que Valentich voava, abaixo de 1500 metros, não era suficiente para o seu Cessna (ou a outra suposta aeronave) aparecer no visor.

Se a altitude não era suficiente, porque motivo os aviões que pouco tempo depois participariam na operação de salvamento, e que voavam a altitudes de 150 metros, foram observados na radar de Melbourne? Aparentemente a explicação reside numa propagação de radar "anómala", que em determinadas circunstâncias permite que os radares de Melbourne captem inclusivamente as zonas mais altas de King Island (cerca de 200 metros de altitude). De acordo com os ficheiros oficiais, a noite de 21 de Outubro de 1978 foi uma das noites em que esse fenómeno ocorreu.

Em resumo, é normal que o Cessna de Valentich não tenha sido detetado no radar, mas também existe a possibilidade de Valentich se ter dirigido noutra direção, que não para King Island.

Valentich disse à sua namorada, Rhonda Rushton, que se encontraria com ela nessa noite às 20:00, quando sabia que não iria conseguir chegar a tempo

É certo que Valentich disse ao seu pai Guido Valentich, que estaria de volta de King Island por volta das 22:00. Também disse ao seu amigo Ronald Grandy do ATC que iria jantar com ele nessa mesma noite, às 22:00.

Porque motivo diria então à sua namorada que chegaria às 20:00, quando sabia que não era possível? O pai de Valentich, afirmou numa entrevista, que desconfiava de algo estranho no depoimento de Rhonda:



Para além desta aparente contradição, Rhonda Rushton também mencionou que Frederick Valentich lhe ofereceu um anel de amizade, 10 dias antes da data de aniversário de namoro, a qual costumavam comemorar todos os meses. Pese embora Rhonda tenha dito por várias vezes a Valentich que a data não estava correta, ainda assim Valentich insistiu em dar-lhe o anel. Poderia Valentich estar de alguma forma a despedir-se?

Apesar de todas as teorias que tentam explicar este acontecimento de forma convencional, não podemos excluir a hipótese de Valentich ter falado a verdade. Afinal de contas, parecem existir vários relatos de OVNIS no dia do seu desaparecimento, e até mesmo uma estranha foto, que até hoje não foi explicada de forma conclusiva. A hipótese OVNI, será por mim analisada, no próximo (e também último) artigo sobre este enigma fascinante.

Veja também:

O desaparecimento misterioso de Frederick Valentich - Parte I
O desaparecimento misterioso de Frederick Valentich - Parte II