O ENIGMA DOS CAIXÕES QUE DANÇAM



O Túmulo Chase em Christ Church, na cidade de Oistins, Barbados

Penso que teria cerca de 10 anos quando li pela primeira vez sobre o enigma dos "caixões que dançam". Esta história paranormal, assustava-me e fascinava-me simultaneamente, mas nos anos 70 não existia Internet, e para um rapazito de 10 anos não era possível fazer grande coisa para aprofundar o assunto.

Hoje em dia a história é outra. É possível descobrir muita coisa sem ser sequer necessário sair de casa. Os dados que consegui reunir permitirão, assim espero, que formem a vossa opinião sobre os acontecimentos ocorridos há quase 200 anos na ilha de Barbados. Será este um verdadeiro caso no domínio do paranormal ou será apenas uma lenda que foi sendo embelezada com o passar do tempo? Antes de analisarmos os pormenores, passemos ao relato deste enigma, na sua versão mais popular.

O túmulo Chase (Chase vault) fica situado no cemitério de Christ Church, na cidade de Oistins, em Barbados. Foi originalmente construído em 1724 para James Elliot mas veio mais tarde a ser adquirido pelo coronel Thomas Chase, após ter sido descoberto que os restos mortais de James Elliot tinham desaparecido e o túmulo se encontrava vazio. É uma estrutura de cantaria, escavada num planalto de coral, não muito longe da capital Bridgetown. É uma espécie de caixa-forte, encontrando-se parcialmente à superfície e parcialmente debaixo do solo. Este tipo de construção, era uma forma de proteger os restos mortais dos elementos naturais e também da raiva dos nativos, uma vez que no início do séc. XIX existia escravatura em Barbados, e a vingança pelos maus tratos inflingidos repercutia-se muitas vezes na pilhagem e vandalização dos túmulos dos esclavagistas.


Interior do Túmulo Chase

O túmulo foi utilizado pela primeira vez em 1807, para receber os restos mortais de Thomasina Goddard, no seu caixão de madeira. Foi neste sepultamento que se descobriu que o túmulo se encontrava vazio, o que originou a sua compra pelos Chase. Não muito tempo depois, em 1808, o túmulo foi pela primeira vez utilizado por esta família.

Mary Anna Maria Chase, filha do coronel, faleceu com apenas dois anos de idade e foi sepultada num pequeno caixão de chumbo. Nessa ocasião, o caixão de Thomasina Goddard encontrava-se na sua posição original. Quatro anos mais tarde, a irmã mais velha de Mary Anna, a menina Dorcas Chase, faleceu também. Os relatos da época dizem que o coronel Chase era um homem violento, que infligia maus-tratos à filha, e que por este motivo ela deixou-se morrer à fome. Dorcas Chase foi igualmente sepultada num caixão de chumbo e, aquando do seu funeral, os caixões de Thomasina Goddard e de Mary Anna encontravam-se nos seus lugares iniciais, imperturbados.

Passado um mês, o coronel Thomas Chase suicidou-se. Foi no seu funeral, após a abertura do túmulo, que se verificou o primeiro fenómeno. Os caixões das suas duas filhas não se encontravam na sua posição original, principalmente o da pequena Mary Anna, que se encontrava agora no canto oposto ao qual tinha sido encostado, e virado ao contrário. Na altura não se pensou em nenhuma causa paranormal, e o fenómeno foi atribuido a ladrões de túmulos.

Seguiram-se outros três sepultamentos, dois em 1816 e outro em 1819 mas de cada vez que o túmulo era aberto, os caixões (que eram arrumados nos seus lugares sempre que o túmulo era fechado), encontravam-se novamente deslocados e espalhados de forma desordenada. Tendo em conta que o o túmulo era selado por uma lápide pesada, sendo necessários seis ou sete homens para a deslocar, o caso começou obviamente a ganhar fama em Barbados e a população questionava-se se o próprio diabo não teria residência no cemitério de Christ Church.


Caixões em desordem no túmulo Chase - Ilustração de 1865, publicada na revista Once a Week

Após o último episódio em 1819, o caso chamou a atenção do governador da ilha, Lord Combermere, que ordenou uma investigação. 

As paredes do túmulo foram examinadas por pedreiros, que concluiram que o mesmo era sólido, sem partes ocas ou passagens secretas. Não havia vestígios de água ou inundações. Os caixões foram colocados no seu lugar, e o governador mandou espalhar uma areia fina no chão, para se poder detetar pegadas de eventuais intrusos. A laje de pedra foi novamente colocada no lugar e cimentada, mas desta vez o governador colocou o seu selo pessoal no cimento, para poder determinar com rigor que o túmulo não era violado.

Um ano depois, em 1820, após relatos de ruídos no cemitério, o governador mandou reabrir o túmulo. O caixão de chumbo de Thomas Chase, extremamente pesado, estava de pé, encostado à laje da entrada. Os outros também estavam em desordem, a não ser o primeiro caixão de madeira, de Thomasina Goddard. A areia que o governador tinha mandado espalhar pelo chão, não tinha qualquer marca. Lord Combermere decidiu então que os caixões fossem transferidos para outro local, e o túmulo dos Chase ficou desde essa altura vazio, e assim permanece nos dias de hoje.



Vídeo muito interessante, da agência ISM, sobre o enigma do túmulo Chase, e filmado in loco

Será toda esta história verdadeira? Existiu mesmo um fenómeno paranormal no túmulo dos Chase? Primeiro que tudo, analisemos as fontes.

O primeiro relato escrito deste enigma apareceu somente treze anos depois. Foi na obra Transatlantic Sketches, de 1833, da autoria de James Edward Alexander. Este livro pode ser obtido gratuitamente, no site Internet Archives, neste link. Procurem por The Mysterious Vault, no capítulo X, cujo texto se inicia assim:

It is not generally known, that in Barbadoes there is a mysterious vault, in which no one now dares to deposit the dead...

Pese embora este seja o primeiro relato escrito, o autor apenas faz um pequeno resumo dos acontecimentos supostamente paranormais que rodearam o túmulo Chase. Faz também uma menção interessante a um caso ocorrido em Staunton, no condado de Suffolk em Inglaterra, onde terá ocorrido igualmente um episódio de caixões que se moviam, com a curiosidade dos mesmos serem igualmente de chumbo.

A segunda fonte escrita é mais bem detalhada e apareceu em 1865 na revista Once a Week, volume 12. O eBook desta publicação também está disponível para quem quiser consultar ou fazer download, neste link. Procurem pelo título A Grave Disturbance, na pág. 319. O artigo está assinado por R.Reece.

Embora já tivessem decorrido 45 anos após os acontecimentos enigmáticos, este relato é muito interessante. R. Reece afirma no seu artigo, que o mesmo se baseia num documento em seu poder, escrito pelo próprio Reverendo Thomas Harrison Orderson, o reitor da paróquia de Christ Church à data dos acontecimentos, e que testemunhou diretamente os mesmos. O autor afirma mesmo que era amigo pessoal do Rev. Orderson (na altura já falecido) e que inclusivamente os desenhos dos caixões (que podem ver mais acima neste artigo) foram copiados de um esboço efetuado por um seu familiar, que também terá presenciado os acontecimentos. O autor R.Reece acaba também por dar algumas opiniões sobre este enigma, descartando a possibilidade de na origem do fenómeno poderem estar tremores de terra ou inundações.



Parece também não existirem dúvidas que o governador de Barbados testemunhou os acontecimentos. A sua terceira esposa, Mary, Viscondessa Combermere, escreveu um livro em 1866, com o título Memoirs and correspondence of Field-Marshal Viscount Combermere (grátis neste link), no qual confirma a presença do seu marido na abertura do túmulo, bem como alguns pormenores como a colocação do selo pessoal no cimento. Embora a viscondessa refira que baseou alguns pormenores num panfleto que existia em Barbados sobre o túmulo Chase, deverá com toda a certeza ter confirmado os vários aspectos da história com o seu marido com quem casou em 1838, ou seja, 18 anos após os acontecimentos.

Por fim, no livro Pocket Guide to the West Indies (Duckworth - 1910), reside talvez a prova definitiva de que a história dos caixões que dançam, é real. Este livro pode ser adquirido na Amazon:


Neste livro, o autor do artigo sobre o túmulo Chase, Hon. Forster B. Alleyne, menciona ter falado diretamente com uma testemunha presencial, que esteve com Lord Combermere na abertura do túmulo. Alleyne visitou também a paróquia de Christ Church, e para além de ter observado os registos funerários com pequenas notas sobre os fenómenos, descobriu um documento contemporâneo dos mesmos, escrito por Mr. Nathan Lucas. Nesse documento, para além de relatos do Rev. Orderson e do próprio Nathan Lucas confirmando a sua presença na abertura do túmulo em 1820, existem também desenhos efetuados pelo aide-de-camp de Lord Combermere, Hon. Major Finch. A existência deste documento escrito por Nathan Lucas, foi também confirmada pelo escritor Andrew Lang.

Com tudo isto, não tenho dúvidas que os "caixões que dançam" não é uma lenda, mas sim um acontecimento real. Quanto a explicações, parece-me também ser lógico concluir que os caixões não foram movidos por mão humana. Como explicar a laje de cimento inviolada ou a areia espalhada no túmulo não ter quaisquer marcas? Um fenómeno natural, como por exemplo uma inundação ou um tremor de terra poderiam talvez explicar o fenómeno. No entanto, estando o cemitério bastante acima do nível do mar, vários autores descartam a hipótese de inundação. Um tremor de terra teria causado igualmente danos estruturais na estrutura do túmulo, mas tal não aconteceu. Além de que os túmulos vizinhos não parecem ter sofrido danos. Terá sido efetivamente um fenómeno paranormal? Cabe a si decidir.