OUTRAS APARIÇÕES ENIGMÁTICAS DO HOLANDÊS VOADOR



Miragem Fata Morgana

No meu artigo principal sobre este tema, O Enigma do Holandês Voador, tive a oportunidade de mencionar o avistamento do navio fantasma em 1939, na África do Sul, assim como indiquei aquela que é, no meu entendimento, uma explicação plausível e não-paranormal do fenómeno. 

No vídeo inicial podem ver mais um exemplo de uma Fata Morgana, uma complexa miragem que ocorre por inversão térmica e que pode produzir efeitos visuais muitos estranhos, distorcendo, aumentando ou invertendo as imagens dos barcos ou navios que estão no mar, permitindo até mesmo visualizá-los quando estão para além da linha do horizonte. Acredito que terá sido um fenómeno desse género que ocorreu na praia de Glencairn, isto se considerarmos credível o relato do British South Africa Annual.


HMS Bacchante - Fonte: Wikipedia

Existem no entanto outros dois relatos sobre o navio fantasma Holandês Voador, que achei interessante mencionar.

Foi em 11 de Julho de 1881, a bordo do navio HMS Bacchante, que o futuro rei de Inglaterra George V (então com 15 anos), viu o Holandês Voador, ao largo do Cabo da Boa Esperança. 

George V e o seu irmão mais velho, o príncipe Albert Victor, estavam no decorrer de uma viagem de aprendizagem a bordo do HMS Bacchante, a qual teria a duração de três anos. Estavam acompanhados do seu tutor John Neale Dalton, o qual editou em 1886 o livro The Cruise of Her Majesty's Ship Bacchante, baseado nas anotações, diários e memórias dos jovens príncipes. Nesse livro, cujo texto integral podem ler aqui, consta a seguinte anotação, datada de 11 de Julho de 1881, a qual irei transcrever no original:

At 4 a.m. the Flying Dutchman crossed our bows. A strange red light as of a phantom ship all aglow, in the midst of which light the masts, spars and sails of a brig 200 yards distant stood out in strong relief as she came up. The lookout man on the forecastle reported her as close to the port bow, where also the officer of the watch from the bridge clearly saw her... Thirteen persons altogether saw her.The Tourmaline and Cleopatra, who were sailing on our starboard bow, flashed to ask whether we had seen the strange red light... At 10.45 A.M. the ordinary seaman who had this morning reported the Flying Dutchman fell from the foretopmast crosstrees on to the topgallant forecastle and was smashed to atoms.

Obviamente que para determinarmos se algo de paranormal ocorreu naquela noite de 1881, este relato vale muito pouco. Podemos atribuí-lo sem dúvida à imaginação do futuro rei, porventura algo aborrecido com a sua longa permanência no navio, embora seja possível que efetivamente algum tipo de fenómeno tenha sido presenciado. Afinal, é curioso que o príncipe George mencione na sua história não só que outras 13 pessoas do HMS Bacchante viram o estranho navio envolto numa luz vermelha, mas também que os navios Tourmaline e Cleopatra o tinham igualmente avistado. No entanto, na parte inicial do livro The Cruise of Her Majesty's Ship Bacchante, no local onde são referidas as mortes que ocorreram a bordo durante a viagem, estranhamente a morte do marinheiro que teria observado em primeiro lugar o navio fantasma não é mencionada... 

Se mesmo assim colocarmos a hipótese de que algo foi visto, existem demasiadas explicações fora do domínio paranormal. Pode ter sido um fenómeno ótico, um navio distante no qual tenha existido um incêndio temporário, um pequeno meteorito que tenha caído no mar... Depois a escuridão, a imaginação, o local onde se encontravam e as lendas do Holandês Voador há muito publicadas, terão feito o resto.


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O segundo relato está relacionado com o escritor inglês Nicholas Monsarrat, o qual terá igualmente avistado o navio fantasma. A história que "corre" na web é a seguinte:

A 3 de Agosto de 1942, o navio H.M.S. Jubilee da Royal Navy dirigia-se para a base naval de Simonstown, perto da Cidade do Cabo. Às 21:00, o navio fantasma foi avistado pelo segundo oficial Davies, que estava de vigia juntamente com o terceiro oficial, o escritor Nicholas Monsarrat. Monsarrat tentou contactar com sinais de luzes o estranho navio que não respondeu. Davies terá feito um registo de bordo, assinalando que o navio navegava com as velas enfunadas, embora não houvesse vento. O HMS Jubilee teve inclusivamente de mudar a sua rota devido ao risco de colisão.

Em comparação com a história do rei George V, esta oferece ainda menos credibilidade. Porquê? Principalmente por dois motivos. Em primeiro lugar não consta em nenhuma lista de navios de guerra da II Guerra Mundial, um navio britânico chamado HMS Jubilee. Em fóruns dedicados ao escritor, também me foi possível verificar que ninguém possuia informação sobre Nicholas Monsarrat ter servido num navio com este nome. 

Em segundo lugar, se acedermos ao site da Royal Naval Volunteer Reserve Officers, temos acesso à carreira militar de Nicholas Monsarrat entre 1939 e 1945. Como seria de esperar, também aí podemos confirmar que o mesmo nunca prestou serviço a bordo de um HMS Jubilee. 

Resta confirmar se existe alguma alguma publicação onde o autor faça uma menção directa ao episódio. A única hipótese poderá ser uma entrevista que o autor deu em 1953, à revista Picture Post. Infelizmente, não existem volumes digitalizados dessa revista online, pelo que decidi encomendar a mesma no site da Collecting House. Nada como ir até ao fundo das questões!

Atualização: Como podem ver ao lado, já recebi a revista que tinha encomendado. O escritor Nicholas Marrat deu mesmo uma entrevista mas... não mencionou absolutamente nada sobre navios fantasma! Parece-me pois que esta história poderá definitivamente ser enquadrada na categoria dos mitos que circulam na Internet, mas que não tem qualquer fundamento.