O ENIGMA DO HOLANDÊS VOADOR



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A idilica praia de Glencairn, que podem ver na foto acima, faz parte da estância marítima de recreio de False Bay, na África do Sul. É conhecida por ser um local aprazível para a prática de surf e outras atividades aquáticas, mas também por ter sido o local de um fenómeno supostamente paranormal. Ali ocorreu uma das últimas aparições do "Holandês Voador", o mais famoso dos navios-fantasma.

Em Março de 1939, num dia extremamente quente, cerca de 60 banhistas que se encontravam na praia, observaram com assombro a aparição de um navio que entretanto surgira no mar. A sua popa alta e o casco largo e achatado, não se assemelhavam com os navios à vela modernos, aparentando antes ser um galeão das Índias, tal e qual como os que haviam navegado naquela baía séculos antes. 

Excitados com este acontecimento, todos quanto estavam na praia observaram que o navio fantasma se dirigia em linha recta para as praias de Strandfontein, rumo a uma destruição certa. No auge da excitação, o navio subitamente desapareceu!

Toda e qualquer referência a esta história enigmática, indica como fonte o British South Africa Annual de 1939. Como é obvio, e uma vez que um dos meus objetivos passa por investigar e validar as fontes de informação de toda e qualquer história dita "paranormal", comecei por confirmar se esta publicação tinha realmente existido. 

Embora a informação na Internet não seja muita, foi possível confirmar que uma publicação com esse nome existiu na realidade. Era uma publicação colonial britânica, uma espécie de almanaque, que compilava artigos dos média e diversas outras informações das antigas colónias britânicas existentes na África Central e do Sul. Como curiosidade posso também referir que, em 1939, para além de jornais, já existiam estações retransmissoras da BBC nas colónias britânicas. Foi também o ano em que o exército francês estabeleceu uma emissora de rádio em Dakar. Exemplares do British South Africa Annual podem ainda ser adquiridos em sites de livros antigos ou usados, como a AbeBooks.

Uma vez que o British South Africa Annual citava referências de outros meios de comunicação, a história da praia de Glencairn não é, infelizmente, um relato em primeira mão. Sobre o jornal ou meio de comunicação original que primeiro veiculou esta história, não encontrei nenhuma referência.

Quem foi então o "Holandês Voador"?


"The Flying Dutchman" (c. 1896), by Albert Pinkham Ryder.

Frenético proferiu a terrível imprecação,
e gritou mais alto do que a tempestade:
Desafio que o poder de Deus altere
a rota do meu destino e a minha carreira.
Nem o demónio dos infernos me fará temer
ainda que tenha de navegar
até ao Dia do Juízo Final.

Casos do Paranormal:Blackwood's Edinburgh Magazine Pese embora nas versões mais antigas da lenda, o termo "Holandês Voador" se refira a um tipo de navio específico utilizado na Companhia Holandesa das Indias Orientais, com o decorrer do tempo o termo passou a identificar o próprio navio fantasma ou o seu capitão Henrik Van der Decken, o autor da blasfémia acima citada.

Van der Decken é um trocadilho que em holandês significa "dos convés", tendo o primeiro registo escrito sobre esta personagem aparecido em Maio de 1821, na Blackwood's Edinburgh Magazine. A Internet é mesmo algo de maravilhoso, e caso desejem ler o conto na revista original, a Haiti Trust Digital Library possui o mesmo digitalizado e acessível através deste link

A revista relata a história deste capitão, hábil marinheiro que certo dia zarpou de Amsterdão, rumo às Indias Orientais Holandesas. Apanhado por uma tempestade, perdeu o leme do seu navio perto do cabo da Boa Esperança e com ele também a hipótese de conseguir dobrar o cabo. O navio acabou por se afundar juntamente com toda a sua tripulação, mas aparentemente o capitão Van der Decken irá mesmo continuar a navegar até ao fim dos tempos... 

Para além da lenda, o que poderá explicar a aparição do navio fantasma, presenciada ao mesmo tempo por várias dezenas de pessoas na praia de Glencairn? Terá sido efectivamente um acontecimento paranormal?

Um dos fenómenos mais espetaculares (e raros) que a natureza nos pode proporcionar, designa-se Fata Morgana. Este nome significa Fada Morgana em italiano, e refere-se à Sacerdotisa Morgana, das Lendas do Rei Artur, que estudou magia com Merlin e conseguia mudar de forma, iludindo as pessoas. Uma espetacular ilusão é efetivamente o que acontece durante o fenómeno Fata Morgana, uma espécie de miragem causada por inversão térmica. Os objectos distantes que estão no horizonte aparecem com uma forma elevada e alargada, como os castelos num conto de fadas. Também é possível ver objectos que estão para lá da linha do horizonte. Vejam o aspecto fantasmagórico de navios distantes durante uma Fata morgana no video abaixo, filmado na costa belga em Julho de 2006:


O que acham? Poderá um fenómeno deste género ter sido o responsável? Os céticos afirmam que sim, mas como explicar então os pormenores referidos pelas testemunhas de que se tratava de um navio "antigo"? Alucinação colectiva? 

Penso que este tipo de casos, em que os únicos elementos de prova de que dispomos são relatos em segunda mão, efetuados há mais de 70 anos atrás, permanecerão sempre na categoria das curiosidades, mas sem existir algo que indicie verdadeiramente ter sido um fenómeno paranormal. Hoje em dia, qualquer pessoa na praia filmaria com facilidade o fenómeno, e tudo se esclareceria (ou não) rapidamente. A Fata Morgana, sem ser do domínio do paranormal, parece-me no entanto igualmente espectacular e uma muito boa hipótese para explicar a aparição do "Holandês Voador" naquele dia distante de 1939, na praia de Glencairn.